Como fazer um referencial teórico

Figura 1 – Muitas leituras e poucos registros
eficientes para compor m referencial teórico.

Você começa seus textos “do zero”? Se senta para escrever sem nenhum material desenvolvido previamente? Se faz isso, provavelmente, você deve ter bloqueios de escrita. O referencial teórico é uma das partes mais importantes de qualquer tipo de pesquisa: TCC (Trabalhos de Conclusão de Curso), monografias, dissertações de mestrado, teses de doutorado, projetos de pesquisa, entre outros.

O referencial teórico é um texto estruturado sobre tudo o que já foi estudado e publicado até o momento relacionado ao seu tema ou problema de pesquisa.

Dentre os problemas mais comuns que costumo observar nos referenciais teóricos que avalio, o mais complicado, no meu ponto de vista, é a desorganização da apresentação das ideias:

  • cópia de fragmentos de outros trabalhos (plágio)
  • falta de coesão do texto final

Não adianta apenas contar o que cada autor escreveu sobre o tema. Um bom referencial teórico é o resultado de um trabalho árduo que é realizado ao longo da condução da pesquisa. De fato, ele apoia a pesquisa.

É preciso de fazer algumas perguntas ao ler cada texto:

  • Por que este trabalho é importante para a minha pesquisa?
  • Como este trabalho se relaciona com os demais trabalhos lidos?
  • Como este trabalho contribui para o meu trabalho?

Na hora de escrever o texto final, há várias abordagens que podem ser seguidas:

  1. Cronológica: contar a história das pesquisas desenvolvidas na área sob uma perspectiva cronológica
  2. Conceitos: organizar o texto a partir dos principais conceitos necessários para o entendimento da sua pesquisa
  3. Modelos / paradigmas: organizar o texto a partir dos principais modelos ou paradigmas existentes na área
  4. Métodos: organizar o texto pelos métodos ou técnicas que utiliza na sua pesquisa

Mais importante que a escrita é a preparação anterior, que acontece enquanto você coleta a literatura e a estuda. Muitos recomendam que se faça um fichamento de cada texto lido.

O fichamento pode ser um resumo, uma resenha crítica comentada das ideias principais abordadas por determinada obra. Pode ser feito por meio de:

  • uma ficha ou folha de papel
  • um arquivo de computador
  • uma ferramenta específica que gerencia uma base de dados, facilitando a procura de um determinado assunto

Independente da escolha que se faça, é preciso fazer esse fichamento com suas próprias palavras.

Você pode sublinhar o texto, fazer notas nas páginas mas não apenas isso. É preciso se fazer as perguntas que colocamos anteriormente, refletir sobre cada trabalho na sua pesquisa e em relação aos outros já estudados, estabelecer conexões entre os conhecimentos adquiridos e escrever com suas próprias palavras sobre cada trabalho.

Método Zettelkasten

Acho que aqui reside uma grande dificuldade de se produzir um bom referencial teórico. Como já mencionamos, o aprendizado vem da conexão entre as ideias:

  • Como esse artigo se conecta ao meu projeto e às minhas ideias?
  • Como esse resultado ou fenômeno pode ser explicado por aquela teoria?
  • Essas ideias são complementares ou contraditórias?
  • Esse argumento é similar àquele?
  • Já li isso antes?

Mas acontece que quando deixamos apenas grifos nos textos e notas nas páginas, essas conexões não acontecem. Elas também não acontecem na nossa mente simplesmente pela leitura de uma pilha de trabalhos. Nossa memória é extremamente limitada e não serve para armazenar ideias.

Precisamos criar um reservatório de ideias! Assim, nosso cérebro pode se encarregar daquilo em que ele é melhor que é realizar a conexão entre as ideias e não armazaná-las. Como já dizia Steve Jobs, a criatividade é apenas a conexão das coisas.

“Creativity is just connecting things. When you ask creative peolple how they did something they feel little guilty because they didn’t really do it, they just saw something”.

Steve Jobs

Assim, precisamos criar um cérebro externo que te apoie com aquilo que sua memória não consegue realizar.

Figura 2 – Implementação tradicional em paper do método Zettelcasten.

O método Zettelcasten foi criado por Niklas Luhmann, um sociólogo alemão que escreveu mais de 70 livros e quase 400 artigos acadêmicos. Zettelkasten significa caixa de anotações. Luhmann dizia que é impossível pensar sistematicamente sem escrever, ou seja, pensar requer uma forma de externalização.

Assim, a pesquisa deve ser desenvolvida com a realização dos seguintes passos:

  1. Leia um artigo
  2. Escreva sobre ele e o adicione a seu arquivo de referências (slip box)
  3. Conecte, diferencie, elabore, julgue as ideias
  4. Revise sempre seu sistema

Eu tenho utilizado uma ferramenta bem interessante para essa organização das notas e visualização do sistema. Trata-se de uma ferramenta chamada Obsidian.

O Obsidian é uma ferramenta que permite criar notas e conecta-las. É possível visualizar as notas através de uma rede. Com essa visualização, padrões de ideias vão surgindo. Dessa forma, temas de pesquisa vão surgir de baixo pra cima com a revisão da rede de notas.

Figura 3 – Exemplo de minhas notas de aula usando a ferramenta Obsidian.

O cérebro tem mais chance de perceber detalhes quando ele escaneia do que quando ele foca. Então, em resumo leia seus artigos, tome notas de forma eficiente, faça conexões entre elas. Ideias surgirão naturalmente e sua escrita se desenvolverá a partir deste sistema.


“Pense dentro da caixa”

Sönke Ahrens em “How to take smart notes”

Temos um vídeo com esse conteúdo e no qual mostramos a ferramenta Obsidian, caso tenham interesse.

Referências

Ahrens, Sönke. How to Take Smart Notes: One Simple Technique to Boost Writing, Learning and Thinking–for Students, Academics and Nonfiction Book Writers. Sönke Ahrens, 2017.

https://obsidian.md/

Publicado por OnlineBioinfo Bioinformática

Meu nome é Raquel Minardi, sou bacharel em Ciência da Computação e doutora em Bioinformática. Sou professora do Departamento de Ciência da Computação da UFMG desde 2010, membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Bioinformática da UFMG, coordenadora da rede BaBEL de Bioinformática aplicada a Biotecnologia, vice-coordenadora do comitê especial de Biologia Computacional da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e secretaria da diretoria regional centro-sudeste da Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional (AB3C). Sou fascinada pela área de Bioinformática e pela possibilidade de desenvolver modelos e algoritmos para suporte a resolução de problemas tão desafiadores quanto os que envolvem a biologia e biotecnologia. Também amo ensinar e desenvolver conteúdos para ensino a distância.

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